Uma breve história do Leme
Do rochedo em forma de leme de navio às chácaras, do bonde ao prédio alto. Como um pedaço de areia entre dois morros virou um dos bairros mais queridos do Rio.

O nome
A origem mais contada do nome é a Pedra do Leme, o rochedo que fecha a praia à direita de quem olha para o mar e que, visto do oceano, lembra o leme de um navio. Há ainda quem ligue o nome a Pedro Leme, membro de uma família de origem flamenga que se estabeleceu na Madeira no século XVI e depois no Brasil. As duas versões convivem, e o bairro não parece se importar.
Antes do bairro
Até o fim do século XIX, a região era pouco mais do que areia, restinga e algumas chácaras. No Morro do Leme, um pequeno forte vigiava a entrada da Baía de Guanabara desde 1776: o Forte do Vigia, embrião do atual Forte Duque de Caxias. Durante o Império, famílias da cidade vinham até aqui para fazer piqueniques e passar o dia na praia, numa viagem que exigia contornar os morros por trilhas ou por mar.
Em 1873, o empresário Alexandre Wagner começou a comprar as terras entre o Morro do Vigia e a atual Rua Siqueira Campos. Entre 1892 e 1894, junto com Otto Simon e Theodoro Duvivier, fez o primeiro loteamento. A primeira rua traçada foi a Gustavo Sampaio, que até hoje é a espinha dorsal do comércio do bairro. Uma segunda via aberta nessa época, batizada de Tomé de Souza, viraria décadas depois a Avenida Princesa Isabel.
1906: o túnel, o bonde e a avenida
O ano que muda tudo é 1906. Na gestão do prefeito Pereira Passos, inaugura-se o Túnel Novo (oficialmente Túnel Engenheiro Coelho Cintra), ligando Botafogo diretamente ao Leme. No mesmo ano, a linha de bondes da Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico chega à Praça do Vigia, e a Avenida Atlântica é concluída ao longo de toda a orla do Leme e de Copacabana.
Com acesso fácil, o bairro deixa de ser lugar de passeio e vira lugar de morar. As primeiras casas e pequenos edifícios aparecem ao longo da Gustavo Sampaio e da orla, e o Leme ganha um ar de vila à beira-mar, mais quieto que a vizinha Copacabana, que crescia em ritmo acelerado.
O morro e as comunidades
Nas encostas do Morro da Babilônia havia chácaras, entre elas a de Wilhelm Marx, pai do paisagista Roberto Burle Marx. A partir de 1915, as encostas começam a ser ocupadas por trabalhadores, muitos deles ligados às obras da cidade e do próprio forte. Por volta de 1934, consolidam-se as comunidades da Babilônia e do Chapéu Mangueira, que desde então fazem parte do bairro tanto quanto a orla. O morro ainda guarda uma das áreas de Mata Atlântica reflorestada mais bonitas da Zona Sul, com trilhas que terminam em vistas de tirar o fôlego.
Verticalização e vida de bairro
Nos anos 1950 e 1960, o Leme ganha prédios altos. O Hotel Vogue, destruído por um incêndio em 1955, dá lugar ao alargamento da Princesa Isabel, que só então alcança as dimensões atuais. Em 1949 a antiga Tomé de Souza já havia sido rebatizada em homenagem à princesa. Na orla, surge o Hotel Méridien, hoje Windsor Atlântica, por décadas o prédio mais alto do bairro, e famoso pela cascata de fogos que descia da fachada no réveillon.
Em 1971, o calçadão é alargado e ganha o desenho de ondas em pedras portuguesas que virou símbolo do Rio. Em 1975, o Forte Duque de Caxias é desativado como posto militar e, anos depois, aberto à visitação: a trilha até o alto do Morro do Leme é hoje um dos passeios mais queridos de quem mora aqui. Em 2003, a estátua da Princesa Isabel é inaugurada no início da avenida, bem na divisa com Copacabana.
O Leme de hoje
Apertado entre o mar, dois morros e um túnel, o Leme ficou pequeno o suficiente para que todo mundo se conheça. É disso que o Vizinhos do Leme nasceu: da constatação de que um bairro com esse tamanho pode se organizar, cobrar e cuidar de si mesmo. Esta página é a nossa contribuição para que a história continue sendo contada, por quem mora nela.
Fontes: Diário do Rio (História da Avenida Princesa Isabel), Wikipédia (Leme, Rio de Janeiro), acervo de fotos dos vizinhos. Tem uma foto antiga ou uma história do bairro para contar? Manda para a gente.
- 1776
Construção do Forte do Vigia no Morro do Leme, origem do Forte Duque de Caxias.
- 1873
Alexandre Wagner começa a comprar as chácaras entre o Morro do Vigia e a atual Siqueira Campos.
- 1892 a 1894
Primeiro loteamento. A Rua Gustavo Sampaio é a primeira via traçada.
- 1906
Inauguração do Túnel Novo, chegada do bonde à Praça do Vigia e conclusão da Avenida Atlântica.
- 1915
Início da ocupação das encostas do Morro da Babilônia.
- 1934
Consolidação das comunidades da Babilônia e do Chapéu Mangueira.
- 1949
A Rua Tomé de Souza passa a se chamar Avenida Princesa Isabel.
- 1955
Incêndio do Hotel Vogue; a Princesa Isabel é alargada até as dimensões atuais.
- 1971
Duplicação do calçadão da orla.
- 1975
Forte Duque de Caxias é desativado como unidade militar.
- 2003
Inauguração do monumento à Princesa Isabel, na divisa com Copacabana.
- 2019
Em 4 de julho nasce o Vizinhos do Leme.